O HIP HOP E A MORTE DOS SEUS FILHOS

No ultimo dia 01, Altino Jesus do Sacramento, mais conhecido como Gato Preto, rapper do grupo A Família foi assassinado no Jardim Colombo, zona sul de São Paulo.

As informações à respeito da sua morte ainda são desencontradas, e carecem de respostas. Contudo, o lamentável fato só acentua a fúnebre trajetória de irmãos e irmãs que morrem ainda jovens nas periferias. Mais triste ainda ao saber que depois de um tempo de reclusão o rapper retornaria aos palcos com o grupo que o projetou como afirmou Dj Bira na sua conta no facebook.

Não é válido fazer nenhum juízo de valor sobre a vida do cantor. A história de Gato Preto mostrou-se em prol da comunidade em que ele vivia, e pela arte através da música e poesia. Mas como todo homem preto, pobre e nordestino carregou estigmas sociais, enfrentou dificuldades e morreu como muitos dos seus pares, jovem e alvejado.


Conhecia Gato Preto apenas nos palcos dos shows de rap, não tenho conhecimento profundo da sua vida, e mesmo que tivesse não sou juiz. Apenas apreciador das lutas revolucionários que são travadas através das letras de Rap, palcos da vida, e da militância social. Lamento a morte independente da causa. Contudo alguém que era respeitado por grandes nomes do Rap nacional como o rapper GOG também merece muita consideração e já tem muito o que dizer sobre ele. A morte de Gato Preto independente do motivo, é passível de reflexão sobre o próprio Rap. Artistas de inúmeros gêneros musicais frequentemente morrem pelas mais variadas causas. E até esse ponto não existe nada de mais. Contudo, um breve exame de consciência na nossa memoria nos traz alguns nomes da nossa cultura que partiram. Sabotage, Dina Dee, Dj Primo, Mano Thutão, Preto Ghóez, Speed Freak, Mc Brakela, Dj Lah, Fabio Macari, Tatiana Ivanovici e muitos outros. Independente da causa ou motivo da morte, todos eles sem exceção partiram com um longo caminho ainda pela frente.

Não que eu queira que os irmãos e irmãs do nosso movimento se tornem imortais, Mas uma cultura jovem como o Hip Hop que tem pouco mais de 30 anos no Brasil, não pode perder seus filhos e filhas de maneira tão precoce, e ainda pior, na maioria dos casos de forma violenta. Desejo que no alto das nossas velhices possamos saber de mortes envolvendo pessoas do Hip Hop causadas por fatores naturais de velhice depois dos seus 70, 80 ou 90 anos. Desejo que homens e mulheres do Hip Hop ostentem seus cabelos grisalhos e peles enrugadas, após anos e anos de militância e combate com microfones nas mãos lembrando da época em que subiam nos palcos e destilavam suas cóleras vocais contra as mazelas sociais do sistema, ou mãos que já foram muito sujas de tinta spray quando deslocavam-se a locais  aventurosos para grafitar a sua arte. B.Boyz aposentados pela idade dando dicas para os mais novos que estão começando sobre como fazer um moinho, ou DJs ensinando a arte dos toca-discos para jovens que não fazem ideia do que é uma MK. Não quero ver finais fatalistas or razões de violência, ou qualquer outro motivo que ceifou uma vida quando esta ainda tinha muito o que viver.

O Hip Hop como cultura que consolidou-se como porta voz de uma juventude periférica brutalizada pela fome, pela desigualdade, pelo racismo e que em meio a todo esse caos apontou uma saída a inúmeros jovens, não pode perder seus filhos tão precocemente.

Gato Preto, presente!

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